Operação
Saúde acessível: como a gestão pode reduzir custos sem reduzir o atendimento
Com apenas 25% da população coberta por planos médicos, modelos privados de atendimento buscam reduzir barreiras de preço; Clinical Center Care é um dos casos
Ampliar o acesso à saúde é um desafio que ultrapassa a oferta de médicos e serviços. No Brasil, uma parcela significativa da população não possui plano privado de assistência médica.
Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), os planos de assistência médica tinham 53,16 milhões de beneficiários em julho de 2026, com cobertura equivalente a 25% da população.
Isso significa que o atendimento particular e o Sistema Único de Saúde (SUS) permanecem como alternativas relevantes para milhões de brasileiros que estão fora da saúde suplementar.
É nesse espaço que modelos de clínicas com preços mais acessíveis passaram a buscar uma combinação entre atendimento médico, eficiência operacional e sustentabilidade financeira.
O movimento também ocorre em um mercado de franquias em expansão. Dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF) mostram que o segmento de Saúde, Beleza e Bem-Estar faturou R$ 74,3 bilhões em 2025, crescimento nominal de 14,6% sobre o ano anterior.
A expansão das franquias não significa, por si só, ampliação do acesso à assistência médica. Mas mostra que serviços relacionados à saúde, prevenção e bem-estar ganharam espaço entre os modelos de negócios estruturados no país.
Por que o preço é uma barreira para o acesso à saúde?
O problema identificado pelo médico Pérsio Antunes, fundador da Clinical Center Care, surgiu ainda durante sua rotina de atendimento.
“Eu percebia que existia uma parcela muito grande da população que estava desassistida. E não era porque não existiam médicos ou porque não havia profissionais capacitados.”
Na avaliação do médico, havia situações em que profissionais, exames e tratamentos estavam disponíveis, mas o paciente não conseguia chegar até esses serviços por questões financeiras.
“De um lado, havia pessoas que não tinham condições de manter um plano de saúde. Do outro, a consulta particular tradicional também estava fora da realidade financeira de muitas famílias.”
Foi a partir dessa percepção que surgiu a Clinical Center Care, fundada em 5 de novembro de 2002, em Petrolina. A proposta construída desde então foi organizar uma estrutura com diferentes especialidades e preços compatíveis com a realidade de uma parcela da população.

Como manter preços acessíveis sem comprometer a operação?
O desafio de uma clínica que pretende trabalhar com preços mais baixos não está apenas na definição do valor cobrado pela consulta.
Existe uma estrutura que precisa ser financiada: profissionais, equipes, tecnologia, espaço físico, processos e gestão.
Para Pérsio, a sustentabilidade financeira é parte da própria capacidade de prestar assistência.
“Uma clínica que não é sustentável financeiramente não consegue continuar atendendo bem. Passei a entender a importância de fluxo de pacientes, ocupação da agenda, custos, produtividade, ponto de equilíbrio e gestão de pessoas.”
A lógica é trabalhar com eficiência para reduzir desperdícios sem transformar preço baixo em redução da estrutura necessária para o atendimento.
“Quanto mais eficiente é a operação, menos desperdício existe. E, quanto menos desperdício, maior é a possibilidade de oferecer um serviço de qualidade por um preço que mais pessoas possam pagar.”

O que a Clinical Center Care aprendeu em Petrolina?
A trajetória da Clinical Center Care foi construída durante mais de duas décadas em Petrolina.
No início, a prioridade era criar confiança e atrair pacientes. Com o tempo, a empresa passou a trabalhar com uma relação mais contínua.
“O nosso objetivo passou a ser construir uma relação mais duradoura com o paciente.”
A mudança também envolveu a ampliação das especialidades e melhorias na estrutura e nos processos.
Segundo o material da entrevista, a clínica conta atualmente com mais de 80 médicos de diferentes especialidades e mais de 50 colaboradores.
Pérsio, porém, afirma que o tamanho da operação não é o único parâmetro para avaliar sua trajetória.
“O nosso maior patrimônio é a confiança construída ao longo desses anos.”
O caso de Petrolina passou, assim, a servir como base para uma discussão mais ampla: como estruturar serviços de saúde que tenham preços acessíveis e, ao mesmo tempo, sejam capazes de sustentar a própria operação.

O cartão de vantagens muda o comportamento do paciente?
Outro elemento incorporado ao modelo foi o Cartão MedSempre, a partir de 2019.
Segundo Pérsio, a proposta contribuiu para reduzir barreiras financeiras e estimular o uso dos serviços de saúde de forma menos concentrada em situações de urgência.
“Quando o paciente tem acesso a benefícios que reduzem as barreiras financeiras, ele deixa de pensar na consulta apenas como algo que será utilizado em uma situação extrema.”
Para ele, a possibilidade de acompanhamento também pode alterar a relação do consumidor com a prevenção.
“A pessoa começa a perceber que pode procurar um especialista antes de o problema se agravar. Pode fazer um acompanhamento. Pode cuidar mais da prevenção.”
O modelo também tem um componente operacional. Uma relação mais recorrente com os pacientes permite maior previsibilidade para a clínica, segundo o entrevistado.
“E, do ponto de vista da operação, a integração também trouxe algo muito importante: previsibilidade e capacidade de construir uma relação contínua com o paciente.”

Franquias de saúde podem ampliar o acesso?
A experiência acumulada em Petrolina levou a Clinical Center Care a estruturar uma expansão por franquias em 2025.
A decisão ocorre em um mercado no qual o franchising brasileiro atingiu R$ 301,7 bilhões em faturamento e 202.444 operações no segundo trimestre de 2026, de acordo com a ABF.
No caso da Clinical Center Care, porém, Pérsio afirma que a franquia é um mecanismo para levar o modelo a outras cidades, e não o objetivo central da empresa.
“Eu vejo a franquia como um instrumento de expansão.Ela não é o nosso propósito.O propósito continua sendo o mesmo: ampliar o acesso à saúde.”
A escolha também está relacionada à possibilidade de contar com empreendedores que conheçam as características de cada mercado.
A expansão, entretanto, traz um desafio: não reproduzir automaticamente em outras cidades um modelo criado em Petrolina.
“Cada cidade tem sua realidade. Existem diferenças econômicas, culturais e sociais. Existe uma oferta diferente de médicos. Existe uma dinâmica diferente na relação das pessoas com a saúde.”
Por isso, a empresa pretende adaptar a operação às características locais.
“O problema central pode ser parecido, mas a solução precisa ser inteligente o suficiente para respeitar as características locais.”

Qual é o desafio de escalar um modelo de saúde?
Expandir uma operação de saúde envolve uma questão adicional em relação a outros segmentos: a necessidade de preservar padrões de atendimento enquanto a estrutura cresce.
Para Pérsio, o risco não está apenas na reprodução de processos, mas na manutenção da cultura da empresa.
“Você pode replicar uma marca. Pode replicar um projeto arquitetônico. Pode ensinar processos. Mas cultura é algo mais difícil de construir.”
Na visão apresentada pelo médico, a sustentabilidade financeira continua necessária, mas não deve ser dissociada da finalidade assistencial.
“Quem estiver à frente de uma unidade precisa entender que está administrando uma empresa, obviamente. O negócio precisa ser rentável e sustentável.”
O modelo criado em Petrolina chega, portanto, a uma nova fase. Depois de mais de 20 anos de operação local, a Clinical Center Care pretende levar sua experiência a outros mercados por meio do franchising.
“O nosso objetivo de longo prazo é construir uma rede sólida e responsável, levando a outras regiões um modelo que una clínica médica, diferentes especialidades, gestão eficiente e uma integração estratégica com a MedSempre.Não queremos simplesmente contar unidades. Queremos construir operações que façam sentido para as cidades onde estiverem inseridas.”
A experiência da Clinical Center Care mostra, nesse contexto, uma das formas pelas quais empresas privadas tentam atuar no espaço existente entre o atendimento particular tradicional, os planos de saúde e o sistema público: por meio de operações estruturadas para reduzir barreiras financeiras sem abandonar a sustentabilidade do negócio.
Para Pérsio, esse continua sendo o ponto de partida do projeto.
“Acreditar que o acesso à saúde não deveria ser um privilégio de poucos. E tentar construir, todos os dias, uma alternativa real para que mais pessoas possam cuidar da sua saúde com dignidade, qualidade e segurança.”
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