NRA Chicago 2026
Desperdício de alimentos: dados, causas e impactos no varejo alimentar
Relatórios internacionais e leis recentes indicam perdas na cadeia, descarte no varejo e novas regras para doação, validade e mensuração
O desperdício de alimentos chegou a 1,05 bilhão de toneladas no mundo em 2022, segundo o Food Waste Index Report 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O volume representa 19% dos alimentos disponíveis para consumo no varejo, nos serviços de alimentação e nos domicílios. Do total desperdiçado, 60% ocorreram nas residências, 28% nos serviços de alimentação e 12% no varejo.
A esse volume se soma a perda de alimentos registrada antes do varejo. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que 13,2% dos alimentos sejam perdidos na cadeia após a colheita e antes de chegar às lojas, em etapas como armazenagem, transporte, processamento e distribuição. Segundo a FAO, perdas e desperdício de alimentos estão associados a 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa.
No Brasil, o PNUMA estima que cerca de 20 milhões de toneladas de alimentos sejam desperdiçadas por ano. O dado convive com indicadores de insegurança alimentar: em 2024, 24,2% dos domicílios brasileiros tinham algum grau de insegurança alimentar, o equivalente a 18,9 milhões de lares, de acordo com o IBGE.
O que é desperdício de alimentos
Pela definição da Lei nº 15.224, sancionada em 30 de setembro de 2025, desperdício de alimentos é a perda ocorrida ao final da cadeia alimentar, no varejo e no consumo final, em razão de comportamentos adotados em estabelecimentos varejistas, restaurantes e domicílios. A mesma lei define perda de alimentos como a redução da disponibilidade de alimentos para consumo humano ao longo da cadeia de abastecimento, sobretudo nas fases de produção, pós-colheita e processamento.
A distinção entre perda e desperdício é usada por organismos internacionais no acompanhamento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12.3, que prevê reduzir pela metade o desperdício global de alimentos per capita no varejo e no consumo até 2030, além de reduzir perdas nas cadeias de produção e abastecimento.
Por que o desperdício de alimentos ocorre no varejo
No varejo alimentar, o desperdício de alimentos está ligado a fatores como previsão de demanda, validade, cadeia fria, ruptura de temperatura, excesso de estoque, padrão visual dos produtos, precificação e descarte de itens próprios para consumo que não foram vendidos dentro do prazo comercial.
A gestão de validade ganhou novo componente regulatório no Brasil em 2025. A Anvisa publicou a terceira versão do Guia 16, com orientações para determinação do prazo de validade de alimentos. O documento reúne conceitos, métodos e protocolos para definição de validade e foi atualizado após consulta pública realizada entre julho e dezembro de 2024.
O tema também envolve rotulagem. Nos Estados Unidos, FDA e USDA abriram consulta pública em dezembro de 2024 sobre padronização de rótulos de data em alimentos, citando a necessidade de reduzir dúvidas dos consumidores sobre termos como “sell by”, “use by” e “best by”.
Lei de combate à perda e ao desperdício de alimentos no Brasil
A Lei nº 15.224/2025 instituiu a Política Nacional de Combate à Perda e ao Desperdício de Alimentos (PNCPDA), criou o Selo Doador de Alimentos, alterou regras tributárias e revogou a Lei nº 14.016/2020. O texto reconhece a doação de alimentos como um dos instrumentos de destinação de excedentes próprios para consumo humano.
A lei prevê que alimentos in natura, produtos industrializados e refeições prontas possam ser doados, desde que observadas condições de segurança sanitária, prazo de validade e integridade dos produtos. Para o varejo, isso amplia a necessidade de processos documentados para triagem, armazenamento, transporte, rastreabilidade e destinação de excedentes.
Outros mercados avançam em metas e medição
Na União Europeia, a revisão de 2025 da Diretiva-Quadro de Resíduos introduziu metas vinculantes de redução do desperdício de alimentos até 2030. Os países-membros deverão reduzir em 10% o desperdício no processamento e na manufatura e em 30% per capita no varejo, restaurantes, serviços de alimentação e domicílios.
A regra europeia também exige adaptação dos programas nacionais de prevenção ao desperdício, com medidas de inovação, tecnologia, mudança de comportamento e doação de alimentos. A base de comparação será o volume médio gerado entre 2021 e 2023, salvo exceções previstas na norma.
Nos Estados Unidos, a estratégia federal para redução de perda e desperdício de alimentos e reciclagem de orgânicos foi lançada em junho de 2024. O plano reúne ações de prevenção, reciclagem orgânica, políticas públicas e incentivos para reduzir o descarte.
Como o varejo pode reduzir o desperdício de alimentos
As principais frentes de redução do desperdício de alimentos no varejo envolvem medição, prevenção e destinação. A medição permite identificar volume descartado por loja, categoria, fornecedor, turno e motivo de perda. A prevenção inclui previsão de demanda, gestão de estoque, controle de temperatura, reposição por validade e remarcação de preços para produtos próximos do vencimento.
A destinação entra quando o alimento não será vendido, mas ainda está próprio para consumo. Nesse caso, entram bancos de alimentos, organizações sociais, plataformas de redistribuição, parcerias locais e processos de doação com controle sanitário.
Tecnologias de previsão de demanda, sensores de temperatura, sistemas de gestão de validade, etiquetas inteligentes, visão computacional e inteligência artificial aparecem em iniciativas de varejo e food service para reduzir excedentes, ajustar produção e monitorar desperdício em tempo real. Na prática, a aplicação depende de integração com estoque, compras, logística, loja e operação de cozinha.

Impacto para supermercados, atacarejos e food service
Para supermercados, atacarejos e operações de food service, o desperdício de alimentos afeta margem, abastecimento, exposição de perecíveis, gestão de fornecedores, descarte e indicadores ambientais. Em categorias como frutas, legumes, verduras, padaria, açougue, laticínios e refeições prontas, a diferença entre venda, remarcação, doação e descarte depende de controle de validade, temperatura e demanda.
A redução do desperdício também passa por indicadores. Entre os principais estão quilos descartados por tonelada vendida, percentual de itens próximos do vencimento vendidos antes do descarte, volume doado, taxa de desvio de aterro, falhas de temperatura por rota ou câmara fria e emissões evitadas.
Desperdício de alimentos será pauta para food service em 2026
A NRA Show 2026, feira da National Restaurant Association, será realizada de 16 a 19 de maio de 2026, no McCormick Place, em Chicago. A programação oficial destaca temas como inteligência artificial, robótica, embalagens sustentáveis e tecnologias para food service.
Para o varejo alimentar brasileiro, a agenda se conecta a temas operacionais ligados ao desperdício de alimentos: previsão de demanda, cadeia fria, validade, porcionamento, reaproveitamento seguro, automação de cozinha, gestão de resíduos, embalagens e rastreabilidade de excedentes.

A Central do Varejo estará em Chicago para a NRA 2026, acompanhando soluções, tendências e operações que impactam o varejo alimentar e o food service. A missão inclui curadoria de conteúdo, visitas, conexões e análise de tecnologias aplicáveis a temas como desperdício de alimentos, eficiência operacional, IA, cadeia fria, embalagens e gestão de perecíveis. Para varejistas, operadores e empresas do setor, a missão é uma oportunidade de acessar referências internacionais e transformar os aprendizados da feira em decisões para a operação no Brasil.
Infográfico produzido com auxílio de inteligência artificial
Imagem: Envato
